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Noites de Verão

Noites de Verão

31
Jul17

O Homem e o Meio


Paula Custódio Reis

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Nesta leva louca de incêndios que tem assolado o País, houve uma ocorrência na minha aldeia, que poderia ter figurado como mais um dos grandes incêndios deste Verão de 2017.

Por sorte, a equipa de sapadores estava por lá. Por sorte, a viatura não estava avariada. Por sorte, os sapadores são pessoas experientes, afoitas e com apego e amor à Terra. Por sorte…

Porque a sorte existe quando as forças vivas se recusam a baixar os braços à interioridade, não se dão por vencidos, mesmo quando o pagamento de magros salários, impostos, equipamentos e combustíveis se tornam operações aritméticas impossíveis, face aos meios de que dispõem.

Conheço muito bem aquela Equipa. Estive na primeira Assembleia de Freguesia, que serviu de base à recolha de assinaturas para a constituir. Participei da alegria de receber cinco trabalhadores motivados e equipados, para o desempenho de uma função tão importante, numa Freguesia com área florestal.

Levaram um treino de choque: no primeiro Verão, num só fim-de-semana, deram resposta a mais de três dezenas de ocorrências… Para além da sorte, também acredito no azar das coincidências…

O que eu me recuso a acreditar é na leveza com que o Território continua a ser analisado, numa perspetiva de cima para baixo, como quem olha para uma máquina de calcular ou um mapa de papel, que pouco dizem da realidade.

Acredito, isso sim, na inteligência humana que procura exemplo de inteligência na Natureza, ela própria. Não esquecendo que os habitantes de um determinado local, conhecem e partilham dessa sabedoria ancestral do Mundo Natural…

Haverá alguém mais conhecedor e defensor do território do que aqueles que o habitam?

Será que vamos continuar a acreditar em acompanhamentos e fiscalizações feitas em gabinete, por meros registadores de dados, que é o que o Estado transformou os seus próprios trabalhadores?

Sabem qual é o salário de um Sapador Florestal? Sabem qual é o orçamento de uma Brigada de Sapadores? Já fizeram contas aos quilómetros que têm as tais viaturas entregues no início do milénio?

Sabem quanto tempo levará a recuperar o Património que estamos a perder?

Sabem, efetivamente, qual é o peso e dimensão do cultivo intensivo de resinosas neste País?

Sabem que não queremos ir todos viver para o Litoral? Que muitos há que gostam e acreditam na vida, com qualidade, na metade interior de Portugal?

Que estratégia de desenvolvimento resultará se as condições básicas não estiverem garantidas? Quem poderá pensar em Agricultura, indústria, turismo, numa região onde as infraestruturas, de um momento para o outro podem desaparecer?

E o que dizer das infraestruturas basilares à nossa existência, que nós pagamos como bens de luxo, como é o caso das portagens, energia, transportes no geral?

No meio do inferno que vivemos este Verão, logo após a semana tenebrosa do Incêndio no Pinhal Interior, ouvi quatro distintos comentadores apontarem como solução ideal ,uma espécie de condomínio concentrado de moradores do interior, para que o Estado melhor tomasse conta deles…

Sabem, as gentes do Interior nunca precisaram que tomassem conta deles. O País Interior é que precisa das suas gentes, e de novas gerações de gentes.

Há uns anos atrás, um autarca de quem gosto e admiro, falava da noção de que estas gentes daqui não precisam de caridade. Caridade Era o que os Senhores vinham fazer, quando atiravam moedas da varanda, à vista de todos.

O que é devido e merecido é a visão de que, a solidariedade de um País começa quando esse País consegue ver-se como um todo.

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