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Noites de Verão

Noites de Verão

03
Abr17

Auroras


Paula Custódio Reis

Auroras

aurora.jpg

O amanhecer, em sítios onde a Natureza pode ser ela própria, tem cheiros, sons e cores que fazem valer a pena levantar cedo e sair de casa.

Quando vejo o sol nascer (a vista despejada), normalmente, vem-me uma música antiga à mente. Esta é uma música partilhada por muitas regiões de Portugal, mas a versão que conheço melhor, tem letra da responsabilidade de um mestre, que a escreveu quando ensinava na escola da minha aldeia: «Lá vem a aurora, lá vem, lá vem, a Madrugada que graça tem.» Saudoso Arlindo de Carvalho.

Ouvi-a muitas vezes, trauteada lá por casa, no regresso das festas e bailaricos ou quando dançava num rancho.

Hoje, imagino ranchos de homens e mulheres, a caminho de um dia longo e pesado de trabalho no campo. E por que é que cantavam? Para aligeirar essa carga, esse esforço, disfarçar a dor.

«Quando andávamos à azeitona não havia silêncio no campo. Cada um puxava de seu lado as canções que sabia.» E era assim que, num trabalho demorado, pesado e levado a cabo no Inverno duro dos sítios onde crescem oliveiras, se construíam, mesmo assim, boas memórias…

A capacidade de trabalhar com alegria foi-se perdendo… os laços de entre-ajuda e companheirismo tornaram-se mais fracos. Passámos a acreditar que a realização, a felicidade, a satisfação, são centradas no eu. Num eu que cresce em desconfiança, e até medo, do outro.

No expoente máximo deste sentimento narcísico, entramos em vórtice de sentimentos negativos, até que percebemos que o bem-estar não pode ser individual. A satisfação só será plena, se for comum.

Não quero o pior dos dias que já passaram, e luto para que esse pior não volte. Mas acredito que temos que rever a forma como nos relacionamos. Recuperar a cooperação, o respeito, a boa vizinhança, a entre-ajuda. Partilhe-se hoje o conhecimento, tal como antes se partilhavam os saberes ancestrais das coisas diárias. Coisas que antes pareciam tão simples, porque eram comuns. Quem pode dizer hoje que seria capaz de fazer germinar o seu próprio sustento? Amassar o seu pão, fazer o seu vinho?

Parece difícil? Alguma vez nos interessámos? Alguma vez perguntámos? Alguma vez ajudámos? Partilhámos desse esforço com alguém?

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