Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Noites de Verão

Noites de Verão

24
Ago17

A cigarra e a formiga


Paula Custódio Reis

cigarra e formiga.jpg

 

«E tu cigarra, o que fizeste durante o verão?

Eu? Eu cantei.

Ai cantaste? Então agora, dança!»

 

Esta era uma das muitas histórias que nos contavam, quando éramos miúdos, ao serão.

Este é um princípio que as gentes do campo conhecem bem. Por isso, os meses de verão, são meses de muito trabalho: colheitas, conservas, arranjos nas casas e caminhos.

Quando vêm as primeiras chuvas, o tempo é de começar a abrandar o ritmo de trabalho, não esquecendo, pelo meio, o tempo das vindimas e da aguardente. Depois a azeitona. Depois as podas, para que nasça nova e ordenada vida, na Primavera seguinte.

O Estio é tempo de trabalho, até porque o tempo de luz, de sol a sol, é mais longo.

O Inverno é tempo de pousio, para dar tempo à Natureza de fazer acontecer os seus milagres.

Sábias práticas e sábios conhecimentos, os daqueles que sabem adaptar-se aos ciclos da Natureza.

Quando os abandonamos, ficamos à mercê dos elementos, e nem o facto de sermos bons cantores nos servirão de muito: «cantas bem mas não me alegras», diz o povo.

Os sábios Gregos diziam que o homem que pensa, mas que não pratica aquilo que pensa, é como se não pensasse.

Eu, por mim, gosto de ler os grandes pensadores, mas aprecio muito, também, a sabedoria daqueles que prevêm, trabalham e se adaptam aos ciclos da natureza, aos ciclos do tempo, precavendo-se, trabalhando.

Porque música, como chapéus, há muita. E para muitos gostos.

 

 

 

 

 

 

31
Jul17

O Homem e o Meio


Paula Custódio Reis

sapadores.jpgcarro sapadores.jpg

 

Nesta leva louca de incêndios que tem assolado o País, houve uma ocorrência na minha aldeia, que poderia ter figurado como mais um dos grandes incêndios deste Verão de 2017.

Por sorte, a equipa de sapadores estava por lá. Por sorte, a viatura não estava avariada. Por sorte, os sapadores são pessoas experientes, afoitas e com apego e amor à Terra. Por sorte…

Porque a sorte existe quando as forças vivas se recusam a baixar os braços à interioridade, não se dão por vencidos, mesmo quando o pagamento de magros salários, impostos, equipamentos e combustíveis se tornam operações aritméticas impossíveis, face aos meios de que dispõem.

Conheço muito bem aquela Equipa. Estive na primeira Assembleia de Freguesia, que serviu de base à recolha de assinaturas para a constituir. Participei da alegria de receber cinco trabalhadores motivados e equipados, para o desempenho de uma função tão importante, numa Freguesia com área florestal.

Levaram um treino de choque: no primeiro Verão, num só fim-de-semana, deram resposta a mais de três dezenas de ocorrências… Para além da sorte, também acredito no azar das coincidências…

O que eu me recuso a acreditar é na leveza com que o Território continua a ser analisado, numa perspetiva de cima para baixo, como quem olha para uma máquina de calcular ou um mapa de papel, que pouco dizem da realidade.

Acredito, isso sim, na inteligência humana que procura exemplo de inteligência na Natureza, ela própria. Não esquecendo que os habitantes de um determinado local, conhecem e partilham dessa sabedoria ancestral do Mundo Natural…

Haverá alguém mais conhecedor e defensor do território do que aqueles que o habitam?

Será que vamos continuar a acreditar em acompanhamentos e fiscalizações feitas em gabinete, por meros registadores de dados, que é o que o Estado transformou os seus próprios trabalhadores?

Sabem qual é o salário de um Sapador Florestal? Sabem qual é o orçamento de uma Brigada de Sapadores? Já fizeram contas aos quilómetros que têm as tais viaturas entregues no início do milénio?

Sabem quanto tempo levará a recuperar o Património que estamos a perder?

Sabem, efetivamente, qual é o peso e dimensão do cultivo intensivo de resinosas neste País?

Sabem que não queremos ir todos viver para o Litoral? Que muitos há que gostam e acreditam na vida, com qualidade, na metade interior de Portugal?

Que estratégia de desenvolvimento resultará se as condições básicas não estiverem garantidas? Quem poderá pensar em Agricultura, indústria, turismo, numa região onde as infraestruturas, de um momento para o outro podem desaparecer?

E o que dizer das infraestruturas basilares à nossa existência, que nós pagamos como bens de luxo, como é o caso das portagens, energia, transportes no geral?

No meio do inferno que vivemos este Verão, logo após a semana tenebrosa do Incêndio no Pinhal Interior, ouvi quatro distintos comentadores apontarem como solução ideal ,uma espécie de condomínio concentrado de moradores do interior, para que o Estado melhor tomasse conta deles…

Sabem, as gentes do Interior nunca precisaram que tomassem conta deles. O País Interior é que precisa das suas gentes, e de novas gerações de gentes.

Há uns anos atrás, um autarca de quem gosto e admiro, falava da noção de que estas gentes daqui não precisam de caridade. Caridade Era o que os Senhores vinham fazer, quando atiravam moedas da varanda, à vista de todos.

O que é devido e merecido é a visão de que, a solidariedade de um País começa quando esse País consegue ver-se como um todo.

28
Jun17

Ciceronear


Paula Custódio Reis

IMG_0030.JPGIMG_0067.JPGIMG_0117.CR2.jpg

IMG_0051.JPGIMG_9038.JPGIMG_9047.JPG

 

«…Parece que a palavra (cicerone) foi utilizada primeiramente para descrever idosos com conhecimentos que mostravam e explicavam aos estrangeiros as antiguidades e curiosidades do país (segundo a definição do Novo Dicionário Inglês de 1762).»

 

 

O Beirão gosta de receber. Fica contente em mostrar a sua terra. Daí que, sempre que possa, convida amigos para a virem conhecer.

Conhece os caminhos, as maravilhas novas e antigas da sua terra e, por isso, sente-se muito bem neste papel.

Sabe que conta com redes formais e informais de gentes que, como ele, gostam muito deste cantinho, e tudo farão para o ajudar, nesta sua tarefa de bem receber.

Sendo, como diz a cantiga, um «coração da Serra», gosto muito de ciceronear.

E gosto muito, porque sei que, também eu, vou descobrir e aprender muito. Vou partilhar e receber sorrisos, conhecimentos e bons momentos.

Porque ser cicerone, por estas bandas é subir à Gardunha e descer ao Tejo, para navegar envoltos em Natureza silenciosa.

É ir molhar os pés à Ocreza e contemplar cenários de contos de fadas.

É passar pela Marateca e ir apanhar cerejas ao pomar do produtor.

É ser recebida em casas comerciais como se estivéssemos em casa de amigos. Provar enchidos, queijos, pão, migas, açordas, peixe do rio, carnes, fruta, doces com sabor genuíno e que vão marcar saudades.

Passear por ruas centenárias, deixar-se envolver pela História e ser abordado pelos moradores, que nos perguntam de onde vimos e nos desejam saúde, bom caminho e agradecem com Bem Hajam, simplesmente porque outros dizem que gostam muito do que é nosso.

É conhecer estruturas novas que dão a conhecer a nossa História, ou que acolhem artes que nos fazem alargar horizontes.

Em suma, ciceronear é partilhar para receber. É dispor do nosso tempo, para construir mais orgulho. É contribuir para defender o nosso Património.

 

 

 

 

 

16
Mai17

O que é que ainda sabemos do que é nosso?


Paula Custódio Reis

PR1 Rota da Gardunha.jpgentrosa.jpg
Ocreza.jpglevada.jpg
 
Ontem, ouvi da importância de incluir nos nossos percursos educativos, os ensinamentos daquilo que é imaterial, relativamente aos sítios que habitamos.
A ligação da educação à herança deste património dos saber fazer, e dos saber ser, é fulcral para que ele se mantenha.
Conseguir identificar e classificar um património material ou imaterial, não é o mesmo que conseguir saber como esse património foi construído, como era usado e toda a riqueza das histórias (e estórias) a ele ligadas.
Fizemos (Associação Cantar de Cuco), este fim-de-semana a Rota das Levadas. Tem início em Louriçal do Campo, sobe até ao caminho do Meio, onde podemos lançar a vista a Monsanto, à Raia fronteiriça até ao Alto alentejo e a todo o Campo Albicastrense e, depois de passar por uma magnífica obra, saída da imaginação do Arquitecto Salles Viana, começamos a descer o «Canhão do Ocreza» até chegarmos à aldeia da Torre. 
Nesta Rota tentamos dar a conhecer um sistema de transporte e aproveitamento de água centenário, que são as levadas (vem do tempo dos Romanos), uma indústria que foi à época intensiva, que era a das azenhas, que fixou populações, que criou caminhos que ainda hoje existem, que atraiu mestres de outras áreas (pedreiros, comerciantes, agricultores). E, no entanto, continuamos a surprendemo-nos quando constatamos que esta nossa Ocreza, junto à Gardunha, continua a ser desconhecida, quer para os habitantes da própria freguesia, quer para o resto do Concelho e região, onde estas azenhas tinham a sua área de influência (iam até à Idanha recolher trigo, dizem).
Tenho para mim, marcadamente presente, a necessidade urgente de trabalhar estes museus vivos que são as comunidades rurais, porque são elas que sempre nos permitem recentrarmo-nos quando perdemos o nosso Norte. É parando, libertando-nos de quaisquer influências externas que conseguimos pensarmo-nos. Questionar-se deveria ser um dos grandes pilares da vivência humana.
Quando a espiral de facilitismo, que as novas tecnologias e as vivências citadinas constroem, nos faz perder o sentido, é preciso parar e perguntar porquê e para quê. Por exemplo, alguma vez se perguntaram porque é que o telefone móvel tem um toque de chamada que é um excerto de uma música? O que é que isso acrescenta? Qual é a mais valia que a tecnologia veio trazer com isso? Estamos a desperdiçar recursos, a inventar inutilidades, que seriam melhor aplicados noutras áreas, que trariam mais felicidade ao ser humano.
O que é que afinal, nos andamos a fazer a nós próprios, ou melhor, o que é que andamos a deixar que façam da nossa vida e das nossas escolhas? A ilusão de liberdade, a ilusão de que todas as decisões do nosso viver são nossas, é, para mim, a mais perigosa das ilusões, porque nos torna seres sem vontade e identidade próprias. E é a identidade, é o uso das características marcadamente pessoais que determinam uma existência plena. É a partir do encontro das diferentes existencias, do seu confronto e somatório,  que a humanidade evolui.

De contrário, estaremos somente a sobreviver. 

 

 

03
Abr17

Auroras


Paula Custódio Reis

Auroras

aurora.jpg

O amanhecer, em sítios onde a Natureza pode ser ela própria, tem cheiros, sons e cores que fazem valer a pena levantar cedo e sair de casa.

Quando vejo o sol nascer (a vista despejada), normalmente, vem-me uma música antiga à mente. Esta é uma música partilhada por muitas regiões de Portugal, mas a versão que conheço melhor, tem letra da responsabilidade de um mestre, que a escreveu quando ensinava na escola da minha aldeia: «Lá vem a aurora, lá vem, lá vem, a Madrugada que graça tem.» Saudoso Arlindo de Carvalho.

Ouvi-a muitas vezes, trauteada lá por casa, no regresso das festas e bailaricos ou quando dançava num rancho.

Hoje, imagino ranchos de homens e mulheres, a caminho de um dia longo e pesado de trabalho no campo. E por que é que cantavam? Para aligeirar essa carga, esse esforço, disfarçar a dor.

«Quando andávamos à azeitona não havia silêncio no campo. Cada um puxava de seu lado as canções que sabia.» E era assim que, num trabalho demorado, pesado e levado a cabo no Inverno duro dos sítios onde crescem oliveiras, se construíam, mesmo assim, boas memórias…

A capacidade de trabalhar com alegria foi-se perdendo… os laços de entre-ajuda e companheirismo tornaram-se mais fracos. Passámos a acreditar que a realização, a felicidade, a satisfação, são centradas no eu. Num eu que cresce em desconfiança, e até medo, do outro.

No expoente máximo deste sentimento narcísico, entramos em vórtice de sentimentos negativos, até que percebemos que o bem-estar não pode ser individual. A satisfação só será plena, se for comum.

Não quero o pior dos dias que já passaram, e luto para que esse pior não volte. Mas acredito que temos que rever a forma como nos relacionamos. Recuperar a cooperação, o respeito, a boa vizinhança, a entre-ajuda. Partilhe-se hoje o conhecimento, tal como antes se partilhavam os saberes ancestrais das coisas diárias. Coisas que antes pareciam tão simples, porque eram comuns. Quem pode dizer hoje que seria capaz de fazer germinar o seu próprio sustento? Amassar o seu pão, fazer o seu vinho?

Parece difícil? Alguma vez nos interessámos? Alguma vez perguntámos? Alguma vez ajudámos? Partilhámos desse esforço com alguém?

01
Fev17

«E o que é que nós temos para oferecer?»


Paula Custódio Reis

caminho.jpgBTT.jpgneve.jpg

 Domingo de ramos.jpgOcreza.jpgfonte velha.jpg

 5.jpg1.jpgFolar.jpg 

Esta é uma pergunta comum, que nos colocamos quando iniciamos um projecto, pricipalmente na área turística.

Tendemos a minimizar o que nos é familiar e disponível. Não conseguimos ter a perspectiva da valorização territorial.

E, um dia, damos por nós a encontrar evidências: o que de melhor temos para oferecer, é o que temos de mais nosso. O que é inquestionavelmente genuíno e diferenciador, quer se trate de Património Construído (incluindo a natureza no seu papel de construtora), quer do Património Imaterial que o habita, que lhe dá uso e sentido.

O que temos de melhor vai semear saudades, boas memórias. Vai ser responsável pela vontade de voltar.

O turista do século XXI está cansado do standardizado, vem à procura de novidade, de diferença, de aprendizagem.

E nós temos muito disso para oferecer e mostrar. E temos a vantagem da grande diversidade que encontramos neste pequeno País. «Daqui se avistam terras de Espanha e areias de Portugal».

Gosto muito da idéia de que o Turismo é a Indústria do Tempo de Paz. E acredito que esta será sempre, uma fonte de subsistência para nós. Saibamos nós aproveitá-la.

Neste campo, a intervenção no território tem que ser a suficiente para que este se torne acessível e conhecido, respeitando-o na sua matriz. De resto, a Indústria de Paz basear-se-á também no conceito de liberdade do seu usufrutuário. No conceito de liberdade de escolha e de tempo disponível, adaptando a sua estadia a estes dois itens. A limitação apenas deverá ocorrer com base no gosto pessoal.

 Porque gosto muito do cantinho da Beira Baixa onde cresci, junto alguns postais, de uma área de uma freguesia rural. Imaginem a diversidade que é possível acrescentar-lhe ou, em alternativa, imaginem, somente, o que há por aqui para oferecer.

 

 

 

09
Jan17

Do(s) Território(s) e sua Organização


Paula Custódio Reis

louriçal.jpg

Aqui de cima, as únicas barreiras visíveis são as da Natureza e, mesmo essas, sei-as facilmente transponíveis, nos dias de hoje.

No entanto ainda vigora uma divisão do Território, nem que seja na mente dos habitantes, que foi definida quando cinco quilómetros demoravam uma hora a palmilhar.

Hoje regemo-nos com base em divisões com base em Freguesia, Concelho, Comunidade Intermunicipal, Região. Mas, se aguçarmos a vista, encontramos divisões mais antigas, que ainda perduram e que estão na base da organização das forças de Segurança, Protecção Civil ou dos Serviços Desconcentrados do Estado. E sem articulação possível entre eles.

Com as aglutinações administrativo-financeiras dos últimos anos perdemos referências territoriais, ganhando em carga burocrática e ineficácia.

A Freguesia, unidade micro do Estado, a mais próxima do cidadão, pode ter que lidar com dois postos de GNR. Os seus fregueses poderão ter que usufruir de um Centro de Saúde, uma escola, ter necessidade de uma corporação de bombeiros que fica na distante sede de concelho, quando na freguesia vizinha poderia ter acesso a estas mesmas valências.

Se for uma Freguesia de fronteira entre dois Concelhos, neste emaranhado ainda terá que lidar com ambos para a resolução dos seus problemas diários. Por vezes, até terá que pensar em ter o apoio e a intervenção de duas Comunidades Intermunicipais ou de duas Regiões se quiser uma intervenção mais profunda ou abrangente nos seus problemas, ou se pensar no engrandecimento das suas potencialidades.

A verdade é que enrolados nos fios destas divisões perdemos muito e perdemos todos.

Não reduzimos custos de qualquer espécie e, duvido muito, que as vantagens sejam significativas.

Os Distritos, unidade intermédia que norteou a organização dos serviços, desapareceram e as Comunidades Intermunicipais, como suas substitutas referenciais, ainda não ganharam (re)conhecimento por parte da população.

A aglutinação de Freguesias, feita a régua e esquadro num qualquer Ministério, consubstanciou-se em soluções mais difíceis de gerir e sem ganho, nem sequer em termos financeiros, para o Estado.

Hoje, prevê-se a transferência de competências e verbas para o Poder Local. Será que conheceremos nós, verdadeiramente, o nosso Poder Local?

Se ele tivesse sido verdadeiramente analisado, não teria sido sobrecarregado de procedimentos administrativos e financeiros difíceis até para quem faz disso vida. Desafio qualquer especialista na área da contabilidade ou administração a levar a cabo, com facilidade, todos os procedimentos diários obrigatórios de uma Freguesia.

Se conhecêssemos e respeitássemos o nosso poder local, não o teríamos esquartejado sem o compensarmos financeira e tecnicamente, para sustentar o novo território que nasceu.

E, a ter acontecido, não bastaria dotar estas unidades de dinheiro e novas competências.

É preciso que exista o apoio de funcionários tecnicamente habilitados a lidar com as novas competências. E não têm sequer que ser novos funcionários. Basta que o Estado seja capaz de se reorganizar na sua capacidade de Gestor de Recursos Humanos, sem aumento de custos no Orçamento Geral do Estado.

Esta afetação de recursos humanos seria preciosa porque, não podemos esquecer-nos, que os autarcas de freguesia têm muitas vezes uma profissão a tempo inteiro, e que ainda há muitas freguesias que apenas têm trabalhadores para serviços exteriores, na sua maioria, aqueles a quem chamávamos «cantoneiros».

Que o Estado esteja mais próximo dos cidadãos, é uma das bandeiras da minha vida. Mas que esteja com todas as condições, para que se possa levar a cabo de forma eficaz e digna.

Gosto e confio na redistribuição de poderes e valências do Estado, mas não defendo só a descentralização, defendo a desconcentração também. O Estado tem que estar presente em todo o território. Não pode demitir-se da sua função de acompanhamento, sob pena da sua própria prestação, que se quer universal e abrangente, se desvirtuar de forma tal que haja não se reconheça como igualitária em diferentes regiões.

Aprendi a gostar da máxima que diz «pensa globalmente, age localmente» mas, no agir, tenho para mim, que tem que estar reconhecivelmente presente o agente.

Para que sejamos nós mais Estado, melhor Estado e melhores cidadãos.

30
Dez16

Tempo ao Tempo


Paula Custódio Reis

alice.jpg

 

«Sê paciente: dá tempo ao tempo.»

 

Porque é que temos a mania de complicar. Porque é que queremos apressar o tempo, para depois olhar para trás com saudosismo.

A queixa dos nossos dias apressados é o tempo (a falta dele) e, no entanto, passamos a vida a não apreciar os momentos. A ânsia de momentos perfeitos leva-nos a estar em permanente sobressalto pelo controlo total. Pelo controlo do que temos que fazer, do que é suposto sentirmos, de como os outros se vão sentir e como nos vão ver.

É como se tivéssemos a capacidade de girar a cabeça e, consequentemente, o olhar, num ângulo de 360 graus, em movimento contínuo. E este é um movimento que contraria as Leis da Natureza, para o ser humano. E como a Natureza é sábia e nela tudo é perfeito, vamos aprendendo que o importante é o aqui e agora. Por mais que os olhos abarquem o horizonte, por mais que a mente se pré-ocupe, se não estivermos no Presente, nem memórias decentes criaremos.

É por isso que tomei uma decisão firme, não só para o Ano Novo, mas para todos os Novos Anos que se avizinham, resumida numa simples palavra: DAR.

Não, não é o DAR ligado à caridade ou à solidariedade. Nem é um DAR muito altruísta. É um DAR abreviatura de três conceitos simples e egoístas: Descomplicar, Apreciar e Relativizar.

Porque acredito que é o que mais faz sentido, para mim, neste momento.

E que bom seria se, em cada momento em que tendemos a ligar os complicómetros na nossa vida quotidiana, nos apercebêssemos que o estamos a fazer. Poder parar no aqui e agora, observar o momento e pensar «não vale a pena». E respirar… e recentrar…

A tolerância, a paz, a alegria e a gratidão cresceriam exponencialmente. Seríamos mais pacientes e, logo, mais felizes. Porque se desdobrarmos a palavra «paciência» podemos encontrar, com facilidade, a Paz como Ciência.

E Paz é o meu mais sincero desejo para todos.

Feliz Ano Novo

 

 

20
Dez16

O Momento


Paula Custódio Reis

madeiro.png

 

Tenho para mim que, as memórias se criam em instantes especifícos. Naqueles breves instantes, em que sentimos o verdadeiro significado de um dado momento.

No Natal, no final da Missa do Galo, as portas abrem-se para deixar entrar os que ficaram a aquecer-se no Madeiro.

E eles entram, de forma ordeira, a juntar-se ao coro de vozes que já se ouvia cá dentro, cantando a plenos pulmões «Entrai, entrai pastorinhos...».

Este é o momento-memória do Natal, para mim. A comunidade que se reúne, sob o cheiro intenso do incenso de festa, cantando alegremente, uma canção simples que fala, sobretudo, de dar as Boas Vindas àqueles que chegam. E os que chegam são os que, habitualmente, não estão por aqui, e é o menino que acabou de nascer.

À saída, o Madeiro. Santo Lenho que nos aquece, nesta noite de festa, e que, por volta da Páscoa, irá adquirir nova forma e novo significado.

Depois da missa, ficavam os homens que haveriam de juntar ao vinho, a sua ceia feita nas brasas.

Hoje, ficam os que querem estender o Natal familiar a uma festa alargada aos amigos, parentes e vizinhos. Nunca o Natal ficou confinado a quatro paredes numa aldeia. É dia de Festa, de reencontro, de partilha.

Cada vez o grupo é mais pequeno, verdade se diga. As casas da aldeia são frias e o custo das viagens arrepia.

Mas também sabemos que, antes de sermos mais, ainda poderemos vir a ser menos. E é este sentimento de solidão, cada vez mais presente por aqui, que nos gela a alma nos dias comuns.

Talvez por isso, sejamos cada vez mais hospitaleiros. E sentimos rasgar um sorriso no rosto, de cada vez que alguém volta, ou nos vem conhecer.

É o sorriso das Boas Vindas sinceras. Do peito cheio onde ecoa todo o ano o «Entrai, entrai...»

 

Boas Festas.

 

05
Dez16

Da imaterialidade das pedras


Paula Custódio Reis

pedras.jpg

 

Há vinte anos atrás recebi, como recordação de viagem, uma pedra chamada Rosa do Deserto. De arestas aguçadas, cor da areia e forma bem vincada, esta foi a primeira de uma colecção que começou aí.

Recolho seixos, pedaços de granito, de calcário e xisto, de lava, de pedra pome. De paisagens lunares, de serras, de rios ou do mar. Pedaços pequenos de edifícios ou de paisagens.

Todas são testemunho de uma passagem, minha ou de um amigo que foi a algum lugar que gostaria de visitar.

Gosto de pensar que são testemunhas do tempo, trabalhadas pela passagem do vento, da água ou da mão humana.

Uma amiga, com nome de estrela, ensinou-me o costume judaico de homenagear com pedras, porque as flores perecem.

As pedras sustentam os edifícios a que chamamos casas. Decoram e condicionam as paisagens.

Algumas estão intrinsecamente ligadas à nossa história pessoal. A minha tem sempre presente o granito talhado. Este sempre esteve na mão da maior parte dos homens da familia que conheci, e daqueles que os precederam. Mais do que uma forma de vida, era um saber, uma arte aperfeiçoada e transmitida.

Mas também o xisto e o calcário das nossas aldeias me faz sentir em casa. É familiar. Une-se a memórias.

Às vezes, as pedras são o único elo de ligação, a uma altura em que elas próprias participavam da vida de seres humanos.

Casas fechadas, que abrigaram famílias, são um amontoado certo de pedras, testemunhas últimas de vivências humanas. Pela falta de cuidados, também este conjunto se desmorona, perdendo a forma harmoniosa que o ser humano lhe deu.

Há quem pense que o material é o Património mais importante. Para mim, não. É o Imaterial que liga o ser humano. São as memórias, os usos, as existências que dão sentido à vida humana. Que constroem comunidades.

As aldeias não são um conjunto de casas. As aldeias são um conjunto de pessoas que, para viverem em comunidade, construiram casas. E construiram histórias e construíram História.

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D