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Noites de Verão

Noites de Verão

29
Jan18

O valor de uma Rosa


Paula Custódio Reis

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Tenho um gosto na vida, que me foi passado pelas gerações anteriores: o de receber. O de acolher e fazer sentir em casa quem é visita.

Percebi, ao longo dos anos, que esta é uma característica Lusa, mais ou menos espalhada pelas regiões, mas que, aqui na Beira, ela é bastante evidente.

Assim, idealizei um projeto. O de fazer do ato de receber, uma atividade.

Tivemos a sorte de encontrar uma casa à medida do nosso gosto, com direito a balcão de pedra e uma horta, onde colher o nosso azeite e alguma fruta.

Chegado à fase das obras, pensamos em conforto, aconchego, no usufruir sempre de uma magnifica vista, que começa no Colégio de S. Fiel, se estende pela fronteira raiana, e pela capital do Concelho, e acaba na Ribeira da Ocreza. E à noite, na ausência de luz que ofusque, que só a Gardunha imaculada nos pode dar, ter a noção da imensidão do Cosmos. E ficar com a certeza da pequenez humana, perante tão grandioso cenário.

No fundo, a intenção é manter e melhorar nesta casa, o que de melhor serviria para alegrar os cinco sentidos humanos.

Daí a história de uma rosa amarela. Esta rosa, a princípio escondida por outro tipo de vegetação, fica num canteiro encostado ao balcão.

Quando vieram tratar da cantaria, pedi encarecidamente, que olhassem por ela. E ela lá continua.

Tenho outras à espera de lhe ir fazer companhia. Mas, esta será sempre especial. Porque tem cheiro. Porque sobreviveu ao tempo de esquecimento. Porque é elo de ligação a uma família que antes ali se constituiu. Porque por ela passaram comemorações e tempos de trabalhos, que criaram memórias em descendentes, a lembrar quem construiu a casa e nela habitou.

Mas também esta rosa me faz ser grata pela paciência e carinho com que foi tratada, num processo que costuma ser de trabalho, azáfama e até atropelo. Pensar que as mãos que sapientemente talharam pedras, foram as mesmas que tiveram paciência para não descurar uma rosa, fez-me ver que também eles sabem valor de uma flor. E sabem-no porque alguém, nas suas casas, as costuma plantar, regar e cuidar. Muitas vezes, eles mesmos.

Ser mestre de uma arte, significa também ser detentor destas singelezas da alma: ser forte com o que é preciso ser forte, sábio para com os obstáculos da vida, sereno em todas as suas atitudes e delicado com o que é frágil.

Esta, para mim, é a prova viva da sabedoria humana. O degrau último que espero alcançar, em permanência.

 

15
Dez17

O raríssimo valor do voluntariado


Paula Custódio Reis

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Trabalho num serviço público desde o início do século. Um serviço que atende muitos utentes, muitas entidades e que tem obrigação de também as acompanhar com uma certa dose de fiscalização.

Conheço bem este serviço. Tem uma sede nacional, uma delegação regional e os serviços de proximidade.

Há quase vinte anos, na unidade onde trabalho, éramos quase o dobro. Tínhamos autonomia na análise e o dirigente tinha autonomia de decisão sobre essa análise. Os papéis eram mais, mas os procedimentos burocráticos eram menos.

Pertencemos a um Ministério cuja orgânica é grande e pesada. Somos muitos, e os graus de decisão muito escalonados. Mas este é um Ministério, cuja boa ação é fulcral para todos os que acreditam no Estado Social. E cuja má imagem convém aos que preferiam que ele fosse mínimo e simplesmente caritativo.

Caridade é uma palavra da qual não gosto em particular. Aqui, nesta região que tanto precisa de um Estado Social forte, aprendi que o que devemos aos outros é a solidariedade desinteressada. Porque, entre outras coisas, a misericórdia que devemos aos mais velhos, prende-se com as condições de vida dura, que sempre tiveram para aguentar vivo este território. Porque a vida, por aqui, nunca foi fácil.

Mas sobre os trabalhadores do Estado, lembro que somos o tipo de trabalhadores a quem a sociedade atira culpas, quando o País percebe que não se acautelou a economia.

À conta disso, reduziram-nos o salário, aumentaram as contribuições do subsistema de saúde de que usufruímos, mas que pagamos religiosamente todos os meses, congelaram as nossas perspetivas de melhor futuro.

Como somos uma unidade com pouca gente, mas com um âmbito territorial enorme (que também foi acrescentado nos últimos anos), já não podemos dizer que temos facilidade em conhecer todo esse território. De Monfortinho à aldeia mais recôndita do Concelho de Oleiros, sem pressas e, com sorte, sem avarias, no mínimo calculo umas duas horas de viagem…

No entanto estamos cá. A fazer o melhor que podemos. A ser os últimos representantes do Estado direto, nesta região que muitos querem esquecida.

E estamos cá a fazer bem. A trabalhar em parceria. Em parceria com os nossos públicos e com os outros que também são Estado. A trabalhar com o terceiro setor, com o voluntariado e com todos os que queiram trabalhar connosco.

E até acumulamos papéis, muitas vezes. Porque também somos voluntários, associados, dirigentes, autarcas.

E perdemos do nosso tempo, da nossa disponibilidade, do nosso lazer. Mas ganhamos em sentido de dever.

Se eu acredito em acontecimentos raríssimos? Óbvio. A ganância e o deslumbramento são próprios do ser humano.

Mas, sinceramente, na maior parte dos casos, este tipo de voluntariado formal ou informal, o acrescento individual que tem, é o da realização pessoal, por fazer algo de que se gosta.

Pessoalmente sinto que não ficaria bem comigo, se não participasse da obrigação de colaborar na construção do bem comum.

Lembro-me que, durante os incêndios, um familiar dizia-me «Quando explicas a um estrangeiro que o combate aos incêndios é feito por Bombeiros Voluntários, que põem a sua vida em risco, eles ficam surpreendidos». E porquê? Porque esse tipo de desapego é a melhor característica deste povo voluntarioso que somos. E é raro de encontrar.

E este voluntariado assenta num gosto, que é o de ajudar o outro. Diriam os grandes teóricos que temos uma grande inteligência emocional…

Eu, por mim, vou continuar a tentar valorizar mais quem dá o seu melhor todos os dias. Seja ele um interventor formal do Estado, seja um qualquer voluntário que, por o ser, torna a vida em comunidade mais humana. E vou continuar a participar e a ser uma associada contribuinte.

Quanto ao resto, bem, talvez seja hora de uma revolução dos costumes. Dum assumir de que, a todos resvala o pé para o pedido do jeitinho ou para o estacionamento mal feito porque temos pressa… E que mudar também começa por aí: respeitar as regras para poder exigir que elas sejam respeitadas…

Como a vida não dá saltos e o tempo leva tempo, espero o reforço de um verdadeiro papel de acompanhamento/fiscalização do Estado, a fim de que, quem erra seja afastado e quem cumpre seja premiado.

E porque é tempo de Festa da Luz, de Solstício e de Natal, desejo a todos um grande ano de 2018 e uma festividade plena de Luz.

04
Dez17

Memórias da Água


Paula Custódio Reis

A água, por aqui, sempre foi abundante. Mas foi preciso ir buscá-la ao interior da terra. 

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Os antigos sabiam que ela lá estava. Diziam que corre um braço de Mar pela Gardunha. E sabiam ser essa uma das grandes riquezas desta Serra. Por causa disso, abriram minas e poços e construíram levadas. Tornaram a terra fértil e criaram um labor, o de moleiro, que deu trabalho a muitas famílias.

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 E até havia uma classe especial de homens, com uma sensibilidade especial, que, armados com um pau de marmeleiro, encaixado nos braços, descobriam com fiabilidade onde havia água em abundância. A estes homens chamou-se vedores.
O meu bisavô aliava a essa sensibilidade o saber da arte de pedreiro. Não sei se herdou ambos dos seus antepassados, que vieram de longe. O nome Braga, já bastante comum por aqui, começou por ser alcunha dado a um mestre de cantaria, trazido dessa cidade, para trabalhar na construção do colégio de S. Fiel.
Do que sei, a maior parte dos seus filhos e muitos netos, aprenderam a trabalhar a pedra.

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E ficaram por cá. Um deles, o meu avô, faria hoje anos. E sei que ficaria muito contente com o som desta manhã de inverno: enchadas, serras, motosserras, vozes, pássaros e abelhas. A vida, depois deste duro e longo verão, está de volta. E a herança destes homens rijos, desta e de muitas outras famílias, trabalhadores e com respeito pela natureza, continua cá.

10
Nov17

O que é que nós temos para oferecer (que seja diferente)?


Paula Custódio Reis

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Por formação e prática, a área do Turismo é, para mim, apaixonante. Por sensibilização profissional, a reabilitação, a integração, o acolhimento da pessoa com deficiência, são temas sempre presentes.

Hoje soube de uma iniciativa que fez disparar um click: associar tudo o que fazemos de muito bem nestas duas áreas.

Indubitavelmente, este País, no seu todo, tem ainda muito por explorar, no que ao Turismo diz respeito. Indubitavelmente também, a grande maioria dos seres humanos caminha para ser portador de algum tipo de deficiência. Indubitavelmente, temos obrigação de tornar os equipamentos da «Indústria da Paz» acessíveis a todos.

Eu, por exemplo, imagino-me a passear até ao fim dos meus dias. Espero fazê-lo sempre com o máximo de condições, que me garantam poder usufruir de tudo.

Então, se temos potencial turístico a explorar, se precisamos de o explorar, se somos bons Cuidadores, se o Mercado Social é, cada vez mais, uma das grandes apostas do País, e se o fazemos com qualidade, juntar os dois só pode ser uma daquelas ideias tão evidentes que só podem ser brilhantes…

Depois da guerra dos incêndios, com as promessas de que o País não pode continuar a ser olhado pelo prisma anterior, este parece-me ser um dos caminhos que estaremos naturalmente talhados para fazer bem.

Saibamos ter a empatia necessária para nos colocarmos no lugar do outro, na tomada de decisões de investimento ou requalificação. Saibamos estabelecer as pontes necessárias entre os agentes económicos, as diversas entidades do Estado e os interventores na área dos cuidados, e sairemos todos a ganhar.

E é tão fácil construir pontes num País tão maravilhosamente pequeno…

Saibamos todos dar o melhor de nós...

02
Nov17

O Culminar da Sabedoria Humana é a Fraternidade


Paula Custódio Reis

Um escocês bem disposto, num Bar Irlandês, perguntava aos presentes das suas nacionalidades, para poder dedicar-lhes canções. Para os portugueses cantou esta, que disse ser a que lhe vinha à mente, quando pensava no nosso País.
Eu lembro um dito já algo gasto: «Deus criou os brancos, os amarelos, os vermelhos, os negros. Os portugueses criaram os mestiços.»
Acho que uma das nossas grandes qualidades é a da tolerância, da integração do outro.

 

A aplicação da máxima que perpassa a maioria das religiões, o RE+LIGARE. A noção de que o caminho da evolução é no sentido da unidade, sendo que o Paraíso será a Unidade vivida conscientemente.
Saibamos pois, ser construtores de pontes.

19
Out17

Medo do Inverno


Paula Custódio Reis

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Tenho medo do Inverno que se aproxima.

Medo do que o Inverno vai trazer, para estes sítios. Medo da solidão que vai ser mais pesada, da fome envergonhada que vai aparecer, do frio que se vai sentir mais.

Contam-me da falta de assistência aos que ficaram sem casa, sem horta, sem apoio familiar.

«O que é que eu fico aqui a fazer? Vou para Lisboa pra perto dos filhos…».

A seguir às árvores, vão ser os humanos a desenraizar-se. E os que ficam, a ficar mais sós.

O trabalho duro, que dá sentido aos dias de Inverno, como a apanha da azeitona e as podas, não vai existir. E todo o ser vivo que não mexe, perde vitalidade.

A solidão, a tristeza e o medo vão ter uma sombra maior.

Quem conhece estas vivências, sabe e conhece estas sombras. Será que os que vivem e trabalham nas praças ensolaradas dos grandes meios serão capazes de as compreender?

Será que vão ser capazes de decidir para poder ajudar?

«É preciso sair da ilha para melhor poder ver a ilha». Sim, mas sair implica SEMPRE ter estado lá…

 

16
Out17

E agora?


Paula Custódio Reis

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E agora? O nível de indignação, de perdas, de vítimas já é suficiente?
Tendo ardido Portugal de Norte a Sul, de Oriente a Ocidente já temos matéria para nos debruçarmos seriamente sobre um assunto difícil como o é a organização e a intervenção no território?
Vai haver coragem para reorganizar os serviços, a protecção, a segurança segundo as mesmas fronteiras?
Vão as entidades supramunicipais e regionais ter intervenção e competências que as validem?
É que a solução de nos mudarmos todos para o litoral caiu por terra também, ou melhor, sucumbiu ao fogo.
Agora, só se formos todos fazer vida suburbana para as grandes cidades.
Não quero continuar a viver num País que depende da intervenção da chuva, para solucionar os grandes erros dos Homens.
Não quero criar esperança para depois rapidamente a perder, por inoperâncias várias.
Já houve contrições, demissões, eleições, voluntarismos de toda a espécie. Responsabilidades, no fundo, o tempo foi-as apagando, ao ponto de os próprios responsáveis virem agora pedir contas também.
Eu só quero que me digam, agora, em que é que posso ajudar e de que forma vão ajudar.
Gostava de ouvir orientações claras sobre o que vamos fazer e como é que o meu País vai mudar...
Gostava de perceber lucidez que, no meio deste caos, o que, para mim, seria a única forma de recuperar a serenidade...

 

 

24
Ago17

A cigarra e a formiga


Paula Custódio Reis

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«E tu cigarra, o que fizeste durante o verão?

Eu? Eu cantei.

Ai cantaste? Então agora, dança!»

 

Esta era uma das muitas histórias que nos contavam, quando éramos miúdos, ao serão.

Este é um princípio que as gentes do campo conhecem bem. Por isso, os meses de verão, são meses de muito trabalho: colheitas, conservas, arranjos nas casas e caminhos.

Quando vêm as primeiras chuvas, o tempo é de começar a abrandar o ritmo de trabalho, não esquecendo, pelo meio, o tempo das vindimas e da aguardente. Depois a azeitona. Depois as podas, para que nasça nova e ordenada vida, na Primavera seguinte.

O Estio é tempo de trabalho, até porque o tempo de luz, de sol a sol, é mais longo.

O Inverno é tempo de pousio, para dar tempo à Natureza de fazer acontecer os seus milagres.

Sábias práticas e sábios conhecimentos, os daqueles que sabem adaptar-se aos ciclos da Natureza.

Quando os abandonamos, ficamos à mercê dos elementos, e nem o facto de sermos bons cantores nos servirão de muito: «cantas bem mas não me alegras», diz o povo.

Os sábios Gregos diziam que o homem que pensa, mas que não pratica aquilo que pensa, é como se não pensasse.

Eu, por mim, gosto de ler os grandes pensadores, mas aprecio muito, também, a sabedoria daqueles que prevêm, trabalham e se adaptam aos ciclos da natureza, aos ciclos do tempo, precavendo-se, trabalhando.

Porque música, como chapéus, há muita. E para muitos gostos.

 

 

 

 

 

 

31
Jul17

O Homem e o Meio


Paula Custódio Reis

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Nesta leva louca de incêndios que tem assolado o País, houve uma ocorrência na minha aldeia, que poderia ter figurado como mais um dos grandes incêndios deste Verão de 2017.

Por sorte, a equipa de sapadores estava por lá. Por sorte, a viatura não estava avariada. Por sorte, os sapadores são pessoas experientes, afoitas e com apego e amor à Terra. Por sorte…

Porque a sorte existe quando as forças vivas se recusam a baixar os braços à interioridade, não se dão por vencidos, mesmo quando o pagamento de magros salários, impostos, equipamentos e combustíveis se tornam operações aritméticas impossíveis, face aos meios de que dispõem.

Conheço muito bem aquela Equipa. Estive na primeira Assembleia de Freguesia, que serviu de base à recolha de assinaturas para a constituir. Participei da alegria de receber cinco trabalhadores motivados e equipados, para o desempenho de uma função tão importante, numa Freguesia com área florestal.

Levaram um treino de choque: no primeiro Verão, num só fim-de-semana, deram resposta a mais de três dezenas de ocorrências… Para além da sorte, também acredito no azar das coincidências…

O que eu me recuso a acreditar é na leveza com que o Território continua a ser analisado, numa perspetiva de cima para baixo, como quem olha para uma máquina de calcular ou um mapa de papel, que pouco dizem da realidade.

Acredito, isso sim, na inteligência humana que procura exemplo de inteligência na Natureza, ela própria. Não esquecendo que os habitantes de um determinado local, conhecem e partilham dessa sabedoria ancestral do Mundo Natural…

Haverá alguém mais conhecedor e defensor do território do que aqueles que o habitam?

Será que vamos continuar a acreditar em acompanhamentos e fiscalizações feitas em gabinete, por meros registadores de dados, que é o que o Estado transformou os seus próprios trabalhadores?

Sabem qual é o salário de um Sapador Florestal? Sabem qual é o orçamento de uma Brigada de Sapadores? Já fizeram contas aos quilómetros que têm as tais viaturas entregues no início do milénio?

Sabem quanto tempo levará a recuperar o Património que estamos a perder?

Sabem, efetivamente, qual é o peso e dimensão do cultivo intensivo de resinosas neste País?

Sabem que não queremos ir todos viver para o Litoral? Que muitos há que gostam e acreditam na vida, com qualidade, na metade interior de Portugal?

Que estratégia de desenvolvimento resultará se as condições básicas não estiverem garantidas? Quem poderá pensar em Agricultura, indústria, turismo, numa região onde as infraestruturas, de um momento para o outro podem desaparecer?

E o que dizer das infraestruturas basilares à nossa existência, que nós pagamos como bens de luxo, como é o caso das portagens, energia, transportes no geral?

No meio do inferno que vivemos este Verão, logo após a semana tenebrosa do Incêndio no Pinhal Interior, ouvi quatro distintos comentadores apontarem como solução ideal ,uma espécie de condomínio concentrado de moradores do interior, para que o Estado melhor tomasse conta deles…

Sabem, as gentes do Interior nunca precisaram que tomassem conta deles. O País Interior é que precisa das suas gentes, e de novas gerações de gentes.

Há uns anos atrás, um autarca de quem gosto e admiro, falava da noção de que estas gentes daqui não precisam de caridade. Caridade Era o que os Senhores vinham fazer, quando atiravam moedas da varanda, à vista de todos.

O que é devido e merecido é a visão de que, a solidariedade de um País começa quando esse País consegue ver-se como um todo.

28
Jun17

Ciceronear


Paula Custódio Reis

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«…Parece que a palavra (cicerone) foi utilizada primeiramente para descrever idosos com conhecimentos que mostravam e explicavam aos estrangeiros as antiguidades e curiosidades do país (segundo a definição do Novo Dicionário Inglês de 1762).»

 

 

O Beirão gosta de receber. Fica contente em mostrar a sua terra. Daí que, sempre que possa, convida amigos para a virem conhecer.

Conhece os caminhos, as maravilhas novas e antigas da sua terra e, por isso, sente-se muito bem neste papel.

Sabe que conta com redes formais e informais de gentes que, como ele, gostam muito deste cantinho, e tudo farão para o ajudar, nesta sua tarefa de bem receber.

Sendo, como diz a cantiga, um «coração da Serra», gosto muito de ciceronear.

E gosto muito, porque sei que, também eu, vou descobrir e aprender muito. Vou partilhar e receber sorrisos, conhecimentos e bons momentos.

Porque ser cicerone, por estas bandas é subir à Gardunha e descer ao Tejo, para navegar envoltos em Natureza silenciosa.

É ir molhar os pés à Ocreza e contemplar cenários de contos de fadas.

É passar pela Marateca e ir apanhar cerejas ao pomar do produtor.

É ser recebida em casas comerciais como se estivéssemos em casa de amigos. Provar enchidos, queijos, pão, migas, açordas, peixe do rio, carnes, fruta, doces com sabor genuíno e que vão marcar saudades.

Passear por ruas centenárias, deixar-se envolver pela História e ser abordado pelos moradores, que nos perguntam de onde vimos e nos desejam saúde, bom caminho e agradecem com Bem Hajam, simplesmente porque outros dizem que gostam muito do que é nosso.

É conhecer estruturas novas que dão a conhecer a nossa História, ou que acolhem artes que nos fazem alargar horizontes.

Em suma, ciceronear é partilhar para receber. É dispor do nosso tempo, para construir mais orgulho. É contribuir para defender o nosso Património.

 

 

 

 

 

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