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Noites de Verão

Noites de Verão

30
Dez16

Tempo ao Tempo


Paula Custódio Reis

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«Sê paciente: dá tempo ao tempo.»

 

Porque é que temos a mania de complicar. Porque é que queremos apressar o tempo, para depois olhar para trás com saudosismo.

A queixa dos nossos dias apressados é o tempo (a falta dele) e, no entanto, passamos a vida a não apreciar os momentos. A ânsia de momentos perfeitos leva-nos a estar em permanente sobressalto pelo controlo total. Pelo controlo do que temos que fazer, do que é suposto sentirmos, de como os outros se vão sentir e como nos vão ver.

É como se tivéssemos a capacidade de girar a cabeça e, consequentemente, o olhar, num ângulo de 360 graus, em movimento contínuo. E este é um movimento que contraria as Leis da Natureza, para o ser humano. E como a Natureza é sábia e nela tudo é perfeito, vamos aprendendo que o importante é o aqui e agora. Por mais que os olhos abarquem o horizonte, por mais que a mente se pré-ocupe, se não estivermos no Presente, nem memórias decentes criaremos.

É por isso que tomei uma decisão firme, não só para o Ano Novo, mas para todos os Novos Anos que se avizinham, resumida numa simples palavra: DAR.

Não, não é o DAR ligado à caridade ou à solidariedade. Nem é um DAR muito altruísta. É um DAR abreviatura de três conceitos simples e egoístas: Descomplicar, Apreciar e Relativizar.

Porque acredito que é o que mais faz sentido, para mim, neste momento.

E que bom seria se, em cada momento em que tendemos a ligar os complicómetros na nossa vida quotidiana, nos apercebêssemos que o estamos a fazer. Poder parar no aqui e agora, observar o momento e pensar «não vale a pena». E respirar… e recentrar…

A tolerância, a paz, a alegria e a gratidão cresceriam exponencialmente. Seríamos mais pacientes e, logo, mais felizes. Porque se desdobrarmos a palavra «paciência» podemos encontrar, com facilidade, a Paz como Ciência.

E Paz é o meu mais sincero desejo para todos.

Feliz Ano Novo

 

 

20
Dez16

O Momento


Paula Custódio Reis

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Tenho para mim que, as memórias se criam em instantes especifícos. Naqueles breves instantes, em que sentimos o verdadeiro significado de um dado momento.

No Natal, no final da Missa do Galo, as portas abrem-se para deixar entrar os que ficaram a aquecer-se no Madeiro.

E eles entram, de forma ordeira, a juntar-se ao coro de vozes que já se ouvia cá dentro, cantando a plenos pulmões «Entrai, entrai pastorinhos...».

Este é o momento-memória do Natal, para mim. A comunidade que se reúne, sob o cheiro intenso do incenso de festa, cantando alegremente, uma canção simples que fala, sobretudo, de dar as Boas Vindas àqueles que chegam. E os que chegam são os que, habitualmente, não estão por aqui, e é o menino que acabou de nascer.

À saída, o Madeiro. Santo Lenho que nos aquece, nesta noite de festa, e que, por volta da Páscoa, irá adquirir nova forma e novo significado.

Depois da missa, ficavam os homens que haveriam de juntar ao vinho, a sua ceia feita nas brasas.

Hoje, ficam os que querem estender o Natal familiar a uma festa alargada aos amigos, parentes e vizinhos. Nunca o Natal ficou confinado a quatro paredes numa aldeia. É dia de Festa, de reencontro, de partilha.

Cada vez o grupo é mais pequeno, verdade se diga. As casas da aldeia são frias e o custo das viagens arrepia.

Mas também sabemos que, antes de sermos mais, ainda poderemos vir a ser menos. E é este sentimento de solidão, cada vez mais presente por aqui, que nos gela a alma nos dias comuns.

Talvez por isso, sejamos cada vez mais hospitaleiros. E sentimos rasgar um sorriso no rosto, de cada vez que alguém volta, ou nos vem conhecer.

É o sorriso das Boas Vindas sinceras. Do peito cheio onde ecoa todo o ano o «Entrai, entrai...»

 

Boas Festas.

 

05
Dez16

Da imaterialidade das pedras


Paula Custódio Reis

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Há vinte anos atrás recebi, como recordação de viagem, uma pedra chamada Rosa do Deserto. De arestas aguçadas, cor da areia e forma bem vincada, esta foi a primeira de uma colecção que começou aí.

Recolho seixos, pedaços de granito, de calcário e xisto, de lava, de pedra pome. De paisagens lunares, de serras, de rios ou do mar. Pedaços pequenos de edifícios ou de paisagens.

Todas são testemunho de uma passagem, minha ou de um amigo que foi a algum lugar que gostaria de visitar.

Gosto de pensar que são testemunhas do tempo, trabalhadas pela passagem do vento, da água ou da mão humana.

Uma amiga, com nome de estrela, ensinou-me o costume judaico de homenagear com pedras, porque as flores perecem.

As pedras sustentam os edifícios a que chamamos casas. Decoram e condicionam as paisagens.

Algumas estão intrinsecamente ligadas à nossa história pessoal. A minha tem sempre presente o granito talhado. Este sempre esteve na mão da maior parte dos homens da familia que conheci, e daqueles que os precederam. Mais do que uma forma de vida, era um saber, uma arte aperfeiçoada e transmitida.

Mas também o xisto e o calcário das nossas aldeias me faz sentir em casa. É familiar. Une-se a memórias.

Às vezes, as pedras são o único elo de ligação, a uma altura em que elas próprias participavam da vida de seres humanos.

Casas fechadas, que abrigaram famílias, são um amontoado certo de pedras, testemunhas últimas de vivências humanas. Pela falta de cuidados, também este conjunto se desmorona, perdendo a forma harmoniosa que o ser humano lhe deu.

Há quem pense que o material é o Património mais importante. Para mim, não. É o Imaterial que liga o ser humano. São as memórias, os usos, as existências que dão sentido à vida humana. Que constroem comunidades.

As aldeias não são um conjunto de casas. As aldeias são um conjunto de pessoas que, para viverem em comunidade, construiram casas. E construiram histórias e construíram História.

 

 

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